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Minha vida mudou após masturbação virar rotina ; benefícios são muitos

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No justiceno peaceno future

À Mariana Nobre Vieira

Começo a escrever este editorial enquanto estou preso, em quarentena, num quarto de hotel há onze dias. No mesmo dia em que explodiu uma quantidade inimaginável de nitrato de sódio na Baixa de Beirute, provocando uma devastação sem precedentes. Não era por aqui que queria começar, mas é difícil saber por onde começar. A última edição do Coreia incluía dois artigos que testemunhavam a violência política e policial na revolução civil em curso no Líbano. O jornal foi para imprimir no dia 10 de março de 2020 para ser lançado a 13. Um dia depois, a 11, a Câmara Municipal do Porto cancela os eventos públicos locais e, em poucas horas, as mesmas medidas alastram a todo o país. Fecham os teatros, os museus, as escolas, as bibliotecas, as piscinas, cancela-se o lançamento e, em questão de dias, é declarado o Estado de Emergência. Ninguém sabia o que aí viria, além do imaginário longínquo do alvoroço causado pela pandemia na China e das notícias fatídicas que chegavam de Espanha e Itália.

Não saber acarreta dois estados de espírito que se confundem. Por um lado, a ansiedade, a impossibilidade de prever, a incapacidade de planear e vislumbrar o futuro. Por outro a expectativa, o desejo, a potência que faz emanar do presente a possibilidade e a utopia. Quem pôde fechou-se em casa, na incógnita do dia depois de amanhã. Quem não pôde, continuou o rumo da sua vida. Xs trabalhadorxs mais reprimidos pelo sistema capitalista tornaram-se essenciais. Xs invisíveis e inviabilizadxs, empregadxs de limpeza, varredores de rua, ‘caixas’ de supermercado, cantoneirxs, trolhas, cuidadorxs formais e informais, quem se ocupa da cidade e dos vulneráveis para que a cidade continue a funcionar sem que se dê por isso, não puderam ficar em casa. A partir do filtro do “essencial”, descobrimos que todas as atividades que nos implicavam, consumíamos e consumiam, eram “não essenciais”.

Quando, em 1969, a artista judia norte-americana Mierle Laderman Ukeles propõe como exposição uma ‘Arte de Manutenção’ trazia para o discurso artístico a necessidade de cuidar do pessoal, do social e do planeta. Para Laderman Ukeles, cujo manifesto “CUIDAR” aqui publicamos em português pela primeira vez, a proposta não é moralizar sobre esses cuidados. É, sobretudo, tornar visível o invisível. O trabalho tão indissociável da vida que deixa de o ser quando vitimado pela capitalização da organização da vida em torno da reprodutibilidade. Sobre o seu legado e o que dá que pensar hoje do ponto de vista do ecofeminismo e da luta de classes contemporânea escreve a historiadora de arte Elisabeth Lebovici, reconectando a obra inicial de Laderman Ukeles com o trabalho artístico e comunitário que desenvolve, desde os anos 1970, com as equipas sanitárias da cidade de Nova Iorque. Um trabalho igualmente invisível que acontece nos meandros que orbitam as instituições de arte e que se ocupa em cuidar do dia a dia de milhões de pessoas.

O dia a dia nunca terá sido tão vivido como neste momento incerto em que cada dia é só mesmo um dia de cada vez. Do registo desse presente diarístico, publicamos uma série de posts poéticos da cantautora Lula Pena que coincidem com a série de eventos políticos e sociais que acompanharam a vida pública portuguesa, vista de dentro de casa. Em paralelo, o coreógrafo e bailarino Henrique Furtado escreve um diário de quarentena que agrega no seu todo questões sobre o estatuto do artista independente na cena da dança europeia, e de todas as contradições que os tempos auguram perante a inversão da economia e da ecologia social, quando o ganha-pão da performance não é uma certeza.

Desde há décadas que uma das questões centrais na esfera dos processos coreográficos coletivos é a ideia de ‘como estar junto’. A sociabilidade da dança enquanto prática comunitária faz com que os artistas se procurem nessa ambição, criando modelos que replicam relações e que levam a imaginar outras formas de reunião e de colaboração. Desbloquear a distância entre os corpos e os espartilhos do dia a dia passa muitas vezes pela sua fusão, pela sua manipulação, pela quebra de barreiras, pela nudez, pela proximidade, pela sensibilidade, pela impertinência. É uma prática transversal à dança e que qualquer bailarinx ou espectadorx experiencia. Partindo da sua experiência de assistir à peça de Daniel Pizamiglio, PRESTE ATENÇÃO EM TUDO A PARTIR DE AGORA, e da sua atividade como médico que tem vivido na pele e nos hospitais a crise da Covid-19, Miguel Teles escreve sobre as relações marcadas pela ideia de imunidade. E retira dessas observações a contradição que o corpo de um bailarino encerra num momento em que o corpo é o agente da transmissão virulenta.

Numa entrevista a Félix González-Torres, vítima da crise da SIDA nos EUA, o artista cubano dizia que queria “ser aquele que se parece com outra coisa para se infiltrar, a fim de funcionar como um vírus”. Continuava: “O vírus é o nosso pior inimigo, mas também deve ser o nosso modelo […] para que nos possamos colar às instituições que sempre existirão […]. Se estivermos anexados a elas como um vírus, replicaremos juntos com elas.”i

O imponderável como única certeza fez com que um grupo de artistas das mais diversas áreas se organizasse num movimento solidário de apoio de emergência a agentes das artes vítimas da falta de proteção social. Essa comunhão na desgraça viu-se transformada num movimento político de relevância, com capacidade para agregar sindicatos e estruturas associativas, e estabelecer uma estratégia para denunciar a precariedade da classe artística e reivindicar os seus direitos laborais. Desse movimento, denominado Ação Cooperativista, publicamos um testemunho que denota a interseccionalidade das suas causas e ambições, prova de que, num momento em que é impossível estar-se junto, foi possível agregar uma comunidade e fortalecê-la, através de uma noção de inclusividade e justiça.

Óbvio é que a metáfora do vírus tanto serve para o bem como para o mal. E que tanto os movimentos políticos progressistas que renovam a esperança por um mundo mais justo por vir, como os da violência, da marginalização, da discriminação, que anseiam o retrocesso (se não pelo menos o status quo), têm uma capacidade exponencial simétrica. O ator negro Bruno Candé foi brutalmente assassinado por um supremacista branco com uma arma da guerra colonial que guardava em casa há mais de quarenta e cinco anos. Este evento projetou, a partir do sentimento do intolerável, a concretização de um dos maiores movimentos antirracistas de sempre em Portugal, replicando a indignação de outros eventos e gatilhos locais e internacionais. Melissa Rodrigues, artista e investigadora, é ativista do movimento antirracista e foi recentemente ameaçada por um grupo extremista neonazi português por denunciar a violência sistémica que perpetua o racismo em Portugal. Meses antes, a artista desenvolvera uma performance cujo processo, em quarentena, fora testemunhando os movimentos de insurreição antirracista. Resultado disso chega-nos um texto-manifesto com a exigência de um futuro de emancipação coletiva no reconhecimento das chagas do colonialismo.

É necessário mudar as instituições para que a sociedade as acompanhe. As duas coisas têm necessariamente de acontecer e na maioria das vezes não acontecem em simultâneo. É por isso que a reprodução do vírus é tão essencial. É preciso continuarmos a reproduzirmo-nos com as instituições, não só para as transformar. Mas para mudar com elas. É de uma experiência como esta, de reclusão e resistência institucional, que nos fala o curador Miguel Wandschneider em conversa com Christophe Wavelet a propósito do novo lugar que irá abrir em Lisboa em outubro, Parterre — uma livraria e um projeto expositivo independente, amadrinhado pela artista Ana Jotta. Nesta troca, discute-se sobre o condicionalismo das instituições e das tutelas, o domínio das tendências, sobre o fazer projetos porque se acredita neles e porque se creem necessários, sobre ética profissional e a forma como a insistência do desejo pode tornar a potência em realidade.

Na sequência de textos-manifestos-testemunhos vários artistas escrevem-nos a partir dos posicionamentos do seu corpo de trabalho. Volmir Cordeiro rejeita por princípio a ideia de propriedade, apropriando-se do impróprio, da margem, para reclamar um ex-corpo que procura legitimidade para ir comer ao corpo dos outros. Diana Niepce fala de um processo de experiência do corpo através da sua própria escuta, em contraposição à adequação à imagem idealizada do corpo na dança. A artista sul-coreana Min Kyoung Lee guia-nos pela sua performance de longa duração em que durante dois anos da sua vida buscou a conquista de iluminação espiritual. São três olhares sobre o corpo e a sua imanência enquanto sujeitos políticos implicados pela agência no mundo. E é com essa consciência política que, num contexto em que a coexistência do corpo na sociedade está em risco, abrimos esta edição com um texto reivindicativo do reconhecimento pelo Estado português das práticas da dança contemporânea que se veem cada vez mais condenadas à efemeridade e ao desaparecimento. Numa iniciativa coletiva da qual fazem parte três dos principais agentes da denominada Nova Dança Portuguesa — Vera Mantero, João Fiadeiro e Francisco Camacho —, a investigadora Liliana Coutinho e eu próprio, aqui se lançam as premissas de uma reflexão que se quer abrir a todos os que celebram a dança e a performance como vitais ao questionamento do corpo na sociedade. É necessária uma iniciativa estatal de salvaguarda do património e de garantia da prosperidade das práticas coreográficas contemporâneas no nosso país. Só assim, congregando um movimento social de emancipação, de luta por direitos e pela inclusão, poderão os portugueses ter um corpo.

i “Portraits of Artists”, Museum in Progress concebido por Peter Kogler, Viena, março de 1994, consultado em https://www.mip.at/attachments/169. Tradução livre.

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Published on Dec 20, 2013

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